Ministério da Pesca suspende quase 260 mil licenças por suspeita de fraude; setor aponta uso de Inteligência Artificial e teme "fim da pesca"

Portaria publicada no Diário Oficial afeta 258.898 pescadores em todo o país. Especialistas e lideranças do setor apontam que cruzamento de dados e pendências no sistema Emprega Brasil podem ser o estopim de uma onda de cancelamentos que já ultrapassa 400 mil registros.

Brasília – O Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) publicou no Diário Oficial da União a Portaria MPA Nº 644, de 5 de março de 2026, determinando a suspensão de 258.898 Licenças de Pescadores e Pescadoras Profissionais inscritos no Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP). A medida, assinada pelo ministro André de Paula, tem como justificativa oficial o "indício de fraude", fundamentada em acusações de falsidade ideológica e estelionato.

A lista completa com as licenças suspensas será disponibilizada no site oficial do Ministério, separada por Unidade da Federação. Os pescadores afetados correm agora contra o tempo: a portaria estabelece um prazo de apenas 30 dias corridos para a interposição de recurso administrativo, que deve ser feito obrigatoriamente via formulário digital no portal Gov.br.

As regras para reaver a licença

A análise dos recursos ficará a cargo da Secretaria Nacional de Registro, Monitoramento e Pesquisa da Pesca e Aquicultura. O governo terá até 60 dias (prorrogáveis por mais 60) para julgar cada caso.

Segundo o texto oficial, a defesa passará por uma tripla verificação:

  1. Reavaliação da documentação no Sistema PesqBrasil;

  2. Verificação de entrega do Relatório de Exercício da Atividade Pesqueira (REAP);

  3. Avaliação dos dados reportados no REAP.

Caso o recurso seja negado, o cancelamento da licença será definitivo, implicando na perda dos direitos de pescador profissional e em um bloqueio de seis meses para a solicitação de uma nova inscrição.

O "pente-fino" tecnológico e a reação do setor

Nos bastidores, o clima entre lideranças pesqueiras e especialistas do setor é de extrema apreensão. Áudios que circulam em grupos de representantes da categoria classificam a medida como devastadora. "Não tem como dizer que esse é um bom dia. Estão acabando com a pesca", desabafou um especialista ligado aos pescadores.

A grande preocupação do setor recai sobre o terceiro critério de avaliação do governo: a análise profunda dos dados do REAP. Segundo informações que circulam entre as lideranças da categoria, o Ministério da Pesca passou a utilizar Inteligência Artificial (IA) para cruzar e analisar as informações enviadas pelos pescadores em seus relatórios. Essa inovação tecnológica estaria identificando inconsistências em massa, algo que não ocorria em portarias anteriores.

Além disso, representantes orientam os pescadores a verificarem imediatamente suas situações cadastrais. Há uma forte suspeita de que a atual lista de suspensões tenha ligação direta com pescadores que possuem alguma "pendência cadastral no sistema Emprega Brasil".

Uma onda de suspensões sem precedentes

A publicação da Portaria 644 não é um evento isolado, mas sim o ápice de um "pente-fino" agressivo do Ministério da Pesca. Lideranças do setor compilaram os dados das últimas grandes ações do governo e apontam um cenário drástico nos últimos meses:

  • Portaria 548 (Setembro): Suspendeu mais de 135.600 licenças em todo o Brasil.

  • Portaria 582: Suspendeu quase 36.000 registros apenas no estado do Maranhão.

  • Portaria 644 (Atual): Suspende quase 260.000 licenças.

Somando apenas essas ações recentes, o número de pescadores afastados de suas atividades oficiais ultrapassa a marca de 430 mil profissionais, gerando um impacto socioeconômico direto em comunidades litorâneas e ribeirinhas por todo o país. O setor agora se mobiliza para entender os algoritmos do governo e organizar uma força-tarefa para auxiliar os quase 260 mil pescadores a protocolarem suas justificativas dentro da janela de 30 dias.

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